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IA, tradução e confidencialidade

  • Foto do escritor: Dona Tradutora
    Dona Tradutora
  • há 12 minutos
  • 7 min de leitura

Você colocaria o contrato do seu cliente numa IA?


Há alguns dias escrevi aqui no blog sobre Tradução Jurídica e as particularidades de trabalhar com contratos.


Quero continuar o assunto abordando uma questão que passou a fazer parte da rotina de muitos profissionais: o uso da Inteligência Artificial durante o processo de tradução.


Imagine uma situação bastante comum... você recebe de um cliente um contrato para traduzir. Durante o trabalho, encontra uma cláusula particularmente complexa, com uma construção jurídica que exige pesquisa.

Abre uma ferramenta de Inteligência Artificial, copia o trecho, cola na caixa de diálogo e pede uma explicação ou uma sugestão de tradução.


Em poucos segundos, recebe uma resposta.

A ferramenta pode ter sido útil, mas a pergunta que você deveria ter feito alguns segundos antes deveria ser: eu poderia ter colocado esse texto aqui?


Essa questão ganha uma dimensão muito maior quando trabalhamos com Tradução Jurídica. O documento que recebemos não é nosso.

Quem trabalha com tradução acaba tendo acesso a uma quantidade enorme de informações que jamais seriam públicas. Contratos podem conter valores, condições comerciais, estratégias empresariais e informações capazes de identificar pessoas ou empresas.


O tradutor recebe esses documentos porque precisa deles para executar um serviço.

Esse acesso não significa autorização para inserir seu conteúdo em qualquer ferramenta utilizada durante o processo.


A confidencialidade faz parte da própria responsabilidade profissional do tradutor.

O Código de Ética da American Translators Association (ATA), por exemplo, inclui expressamente entre os deveres de seus membros proteger informações privilegiadas ou confidenciais obtidas durante o trabalho.


Esse cuidado existia muito antes do surgimento da Inteligência Artificial generativa.

A tecnologia acrescentou uma nova pergunta à discussão: para onde vão as informações quando as inserimos em uma plataforma externa?


O que acontece quando você cola um texto em uma ferramenta de IA?


Essa é uma pergunta que todo tradutor deveria fazer antes de utilizar qualquer ferramenta baseada em Inteligência Artificial com material de clientes.


A resposta vai depender da plataforma utilizada, do tipo de conta, das configurações disponíveis, dos termos contratados e da política de tratamento de dados daquele serviço.


Ferramentas destinadas ao público geral podem funcionar sob condições diferentes das oferecidas em ambientes corporativos ou por meio de soluções contratadas especificamente por empresas.


Por esse motivo, não é seguro partir do pressuposto de que um texto inserido em determinada plataforma simplesmente desaparecerá depois que a conversa terminar.


A própria American Translators Association chama atenção para esse risco em sua declaração a respeito de Inteligência Artificial.

Segundo a entidade, ferramentas de IA podem exigir que o usuário insira textos em plataformas capazes de armazenar, processar ou reutilizar esses dados.

Em determinadas circunstâncias, isso pode resultar em violação de acordos de confidencialidade ou de normas de proteção de dados.


Para quem traduz documentos profissionais, conhecer essas condições deixou de ser apenas uma preocupação tecnológica e passou a integrar a responsabilidade relacionada ao próprio serviço prestado.

O contrato com o cliente também precisa entrar nessa conversa

Existe ainda um ponto que pode passar despercebido: o tradutor pode ter assumido obrigações contratuais específicas a respeito daquele material.


Um NDA, ou acordo de confidencialidade, pode estabelecer limitações quanto ao compartilhamento das informações recebidas. O próprio contrato de prestação de serviços pode determinar como os arquivos devem ser armazenados, quem pode ter acesso ao conteúdo ou quais recursos externos podem ser utilizados.


A ATA mantém, inclusive, um modelo de contrato para serviços de tradução que contempla um acordo específico de confidencialidade e chama atenção para a necessidade de observar as normas de privacidade aplicáveis ao trabalho.


Isso significa que a decisão de utilizar determinada tecnologia não deveria ser tomada apenas com base na pergunta “essa ferramenta melhora minha tradução?”.

Também é necessário verificar se o uso pretendido é compatível com as obrigações assumidas perante o cliente.

Em projetos jurídicos, essa análise merece atenção especial.


Dados pessoais também fazem parte do problema

Nem todo risco está relacionado ao segredo empresarial.

Um documento pode conter informações relacionadas a pessoas identificadas ou identificáveis, o que acrescenta ao trabalho questões ligadas à proteção de dados pessoais.


Dependendo das partes envolvidas, do local em que os dados são tratados e da legislação aplicável, diferentes obrigações podem incidir sobre aquele material.


O simples ato de copiar um trecho para outra plataforma pode representar uma transferência de informações para um novo ambiente de processamento.

O tradutor profissional precisa, portanto, conhecer minimamente o percurso que o documento fará durante seu trabalho. Isso inclui as ferramentas utilizadas ao longo do processo e as condições sob as quais os dados são tratados.


O AI Act colocou a Inteligência Artificial definitivamente na pauta profissional

A discussão ganhou ainda mais relevância neste mês.

Desde 2 de agosto de 2026, novas disposições do Regulamento Europeu de Inteligência Artificial, conhecido como AI Act, passaram a ser aplicáveis. Entre elas estão regras de transparência para determinados sistemas de IA.


O regulamento europeu não foi criado especificamente para tradutores e não significa que todo uso de Inteligência Artificial em uma tradução esteja sujeito às mesmas obrigações.


A entrada em uma nova etapa de aplicação mostra, contudo, uma mudança importante na maneira como governos e empresas estão tratando essas tecnologias.

A utilização profissional da IA começa a exigir uma compreensão mais clara de responsabilidade, transparência e governança.

Para tradutores que trabalham com clientes internacionais, acompanhar esse movimento regulatório também faz parte da atualização profissional.


Ferramenta aberta e ambiente corporativo não são necessariamente a mesma coisa

Outro ponto importante está na forma como falamos de Inteligência Artificial. Dizer simplesmente “usei IA” informa muito pouco.


Uma conta gratuita utilizada por qualquer pessoa, uma solução empresarial com controles específicos de privacidade e uma ferramenta integrada ao ambiente tecnológico de uma organização podem ter condições bastante diferentes de tratamento dos dados e essa distinção importa muito para o tradutor.


Antes de inserir o material de um cliente em qualquer serviço, vale verificar a política de privacidade, as configurações da conta, as condições de retenção de dados e os termos aplicáveis ao produto que está sendo utilizado.

Também vale consultar as orientações fornecidas pelo próprio cliente. Algumas empresas já estabelecem políticas específicas para o uso de IA generativa por fornecedores externos.

Quando houver dúvida a respeito da autorização para utilizar determinada ferramenta com conteúdo confidencial, a decisão mais segura é não inserir o material até que as condições estejam claras.


Anonimizar ajuda, mas exige critério

Uma possibilidade utilizada por alguns profissionais é remover do trecho as informações capazes de identificar pessoas, empresas ou operações antes de recorrer a uma ferramenta externa.


Esse procedimento até pode reduzir determinados riscos, desde que a anonimização seja realmente eficaz.

Trocar o nome da empresa por “Empresa X” nem sempre resolve o problema. O conteúdo restante pode permitir a identificação das partes a partir do contexto, principalmente quando envolve operações muito específicas.


A anonimização precisa ser analisada de acordo com o documento e com a finalidade da consulta. Em alguns casos, sequer será necessário fornecer a frase original. O tradutor pode formular uma pergunta terminológica ou jurídica de maneira abstrata, preservando o problema linguístico que deseja solucionar sem reproduzir o conteúdo recebido do cliente.

Essa habilidade também já começa a fazer parte do uso profissional da IA.


Saber usar IA é diferente de simplesmente usar IA

A Inteligência Artificial pode ser uma ferramenta extremamente útil para o tradutor em termos de pesquisa, organização de informações, exploração terminológica e apoio em determinadas etapas do trabalho que podem ganhar eficiência com esses recursos.


Mas o domínio profissional da tecnologia inclui conhecer os limites da ferramenta e compreender quais informações podem ser fornecidas a cada sistema.


Um tradutor que trabalha com documentos confidenciais precisa pensar na segurança do conteúdo com o mesmo cuidado dedicado à qualidade linguística e, por isso, a escolha da ferramenta passa a integrar o processo de trabalho.

Esse ponto me parece especialmente importante para quem está começando na profissão. Aprender a utilizar novas tecnologias certamente será uma competência valiosa nos próximos anos. E aprender a avaliar quando utilizá-las será igualmente importante.


Antes de copiar e colar, faça algumas perguntas

Antes de inserir qualquer trecho de um trabalho profissional em uma ferramenta de IA, procure saber:

  • O cliente permite o uso dessa ferramenta?

  • O documento está sujeito a alguma cláusula de confidencialidade?

  • Existem dados pessoais ou informações comerciais sensíveis no trecho?

  • A plataforma informa como os dados enviados são armazenados e processados?

  • Há configurações específicas de privacidade disponíveis para a conta utilizada?

  • É possível fazer a consulta sem inserir o texto original ou removendo informações identificáveis?

  • O uso da ferramenta está de acordo com as obrigações que você assumiu no projeto?


Criar esse pequeno hábito antes de recorrer à Inteligência Artificial pode evitar problemas muito maiores depois.


Confidencialidade também é competência profissional

Durante muito tempo, quando falávamos das competências necessárias a um tradutor, a discussão se concentrava no domínio dos idiomas, na capacidade de pesquisa, no conhecimento da área de especialidade e no uso das ferramentas de tradução.

A tecnologia ampliou esse conjunto de conhecimentos.


Hoje, o tradutor também precisa compreender os ambientes digitais pelos quais circulam os documentos que recebe. Isso não exige que se torne especialista em segurança da informação ou em legislação de Inteligência Artificial, mas exige conhecimento suficiente para tomar decisões responsáveis durante o exercício da profissão.


A confiança de um cliente não está apenas na expectativa de receber uma boa tradução, também está na maneira como seu material será tratado enquanto estiver em nossas mãos.

Por isso, quando penso na relação entre tradução e Inteligência Artificial, a pergunta que considero mais importante não é se o tradutor deve ou não utilizar essas ferramentas.

A pergunta é outra:

Você sabe o que acontece com o texto do seu cliente depois que aperta Enter?


O problema talvez não esteja no uso da Inteligência Artificial, e sim em utilizar uma ferramenta sem compreender o que acontece com as informações que colocamos nela.


E, quando essas informações pertencem ao nosso cliente, essa compreensão também faz parte do nosso trabalho.


Ao longo dos anos trabalhando com tradução técnica e jurídica, aprendi que uma parte importante da nossa profissão acontece longe dos olhos do cliente.

Ele dificilmente saberá quantas pesquisas fizemos, quais ferramentas utilizamos ou quantas decisões foram necessárias até chegarmos à versão final de um documento. Ainda assim, confiou a nós informações que, muitas vezes, fazem parte de negociações, relações profissionais e decisões importantes.


É justamente nesse espaço que a ética profissional ganha valor.

A tecnologia continuará avançando e certamente fará cada vez mais parte da rotina dos tradutores. Acompanhar essa evolução é necessário, assim como desenvolver repertório para escolher ferramentas, estabelecer limites e compreender as implicações de cada decisão tomada durante um projeto.


Depois de anos trabalhando com documentos jurídicos, continuo acreditando que conhecimento técnico e domínio dos idiomas são apenas parte da formação de um bom profissional. A maneira como cuidamos do trabalho que nos foi confiado também diz muito a respeito do tradutor que escolhemos ser.


No fim, talvez o cliente nunca saiba se você decidiu ou não copiar aquela cláusula para uma ferramenta de IA.

Mas você saberá e a sua responsabilidade profissional começa justamente aí!

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